A Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) indica a quantidade de oxigênio consumida nos processos biológicos de degradação da matéria orgânica no meio aquático. A DBO de uma amostra de água é geralmente medida em laboratório, por meio de um bioensaio realizado em condições controladas. A DBO é um bom indicador da poluição da água por cargas orgânicas, como os esgotos domésticos.
A Resolução CONAMA nº 357/2005 define os níveis máximo de DBO para rios e lagos para as classes de qualidade:
*Não existe limite para a classe 4 para este parâmetro.
O mapa apresenta a média das medições de DBO (mg/L) entre 2010 e 2024. A Não-Conformidade (NC%)* revela com que frequência estas medições não atendem aos padrões de qualidade da sua classe de enquadramento no mesmo período. Ative a camada no mapa para visualizar a NC%. Para trechos sem enquadramento, foi considerado o limite máximo de 5 mg/L da classe 2.
*As datas de início e fim das séries podem variar de um ponto para o outro conforme a disponibilidade dos dados.
**Clique nos pontos para obter informações sobre número de observações (n), séries históricas, médias e NC%.
Os gráficos mostram a evolução da DBO em corpos hídricos localizados nos ambientes rurais/urbano e lênticos(lagos)/lóticos(rios) entre 2010 e 2024.
A DBO é um indicador-chave da presença de matéria orgânica biodegradável nos corpos de água, refletindo principalmente a influência de esgotos domésticos, efluentes orgânicos industriais e aportes difusos associados à ocupação urbana e atividades agrícolas. Em geral, valores mais elevados de DBO indicam maior consumo de oxigênio pelos microrganismos e, portanto, maior pressão sobre o equilíbrio ecológico, especialmente quando combinado a baixos níveis de oxigenação.
Os mapas evidenciam que trechos com DBO mais baixa e NC% reduzida predominam em grandes rios e em áreas menos urbanizadas, onde a maior vazão e a dinâmica hidráulica favorecem a diluição e a autodepuração. Nesses contextos, a qualidade tende a ser mais estável e mais compatível com o enquadramento.
Por outro lado, a combinação de DBO média moderada com NC% elevada é recorrente em regiões metropolitanas e bacias intensamente utilizadas, indicando que a média anual pode não revelar picos de cargas orgânicas nos cursos de água. Esse padrão é típico de sistemas que operam próximos ao limite de suporte, com resposta sensível à variação de vazão e à eficiência do saneamento.
Trechos com DBO elevada e NC% alta caracterizam corpos de água sob forte impacto, com maior recorrência em pequenos rios urbanos e em áreas densamente ocupadas. Nesses casos, a menor capacidade de diluição torna os efeitos das cargas orgânicas mais intensos, resultando em maior risco de restrição de usos e comprometimento da vida aquática.
A evolução temporal da DBO entre 2010 e 2024 sugere sensibilidade às condições hidrológicas. Em períodos de estiagem e vazões reduzidas, a capacidade de diluição diminui e a DBO tende a se tornar mais crítica, elevando a frequência de não conformidade, sobretudo em áreas urbanizadas. Em fases de recuperação hidrológica, pode haver melhora conjuntural, mas a persistência de não conformidades evidencia que a pressão orgânica de base permanece elevada onde há deficiência estrutural de saneamento.
Observa-se uma forte elevação da não conformidade da DBO (NC%) em ambientes lênticos entre 2023 e 2024 , passando de 27% para 58%. Esse aumento foi impulsionado principalmente pela degradação da qualidade da água na Região Nordeste, com destaque para Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
O Ceará concentra cerca de 67% dos pontos de monitoramento em ambientes lênticos do país, devido à importância dos açudes para a segurança hídrica no Semiárido. No estado, a NC% de DBO nos açudes aumentou de 33% para 95% entre 2023 e 2024, elevando significativamente a média nacional.
Fatores climáticos podem ter contribuído para esse cenário. Entre junho de 2023 e abril de 2024, ocorreu um episódio de El Niño, associado a condições de seca em áreas do Nordeste, com melhora apenas a partir de março/abril de 2024 (ANA). No Ceará, mesmo com boa recarga na quadra chuvosa de 2024, houve redução do armazenamento no segundo semestre, associada a temperaturas acima da média e maior evaporação, conforme registrado pela COGERH. Além disso, 2024 foi o ano mais quente da série histórica no Brasil (INMET), e temperaturas elevadas tendem a reduzir o oxigênio dissolvido e intensificar a atividade biológica, favorecendo o aumento da DBO.
Em termos regionais, os resultados são coerentes com o padrão nacional de saneamento: as condições mais críticas de DBO tendem a se concentrar onde há maiores déficits de coleta e tratamento de esgotos e maior densidade populacional, reforçando o papel do saneamento como principal determinante da carga orgânica lançada nos corpos de água. Assim, a melhoria sustentável da DBO depende fundamentalmente de ações estruturais (expansão e eficiência do tratamento, controle de ligações irregulares e gestão de cargas), além de medidas de controle difuso em áreas urbanas.
Nota: No Estado de São Paulo, a CETESB passou a executar, a partir de 2020, o monitoramento de Carbono Orgânico Total (COT) em substituição à DBO em sua rede de qualidade das águas interiores. A adoção do COT está associada, entre outros fatores, à maior rapidez e robustez analítica do ensaio e à possibilidade de ampliar a consistência e a comparabilidade dos resultados para a avaliação da matéria orgânica. É importante observar que a DBO representa prioritariamente a fração biodegradável da matéria orgânica, enquanto o COT quantifica o carbono orgânico total, razão pela qual a interpretação entre séries históricas deve considerar a mudança metodológica e as relações entre os parâmetros.